Colunistas Mariana Moreira — 25 setembro 2011
Mariana Moreira – A Festa dos Cachorros

As pessoas vão chegando. Alguns arrastam cães indômitos presos a pedaços de corda ou a correntes. Cumprimentam-se, trocam afetos e atualizam os cotidianos do lugar. Os homens espalham-se pelas calçadas e áreas externas da casa. As mulheres concentram-se na sala e os jovens formam grupos mais afastados. O espocar dos fogos de artifício assanha os cachorros que ladram desesperados pela dor que o estampido da pólvora provoca em seus ouvidos. Os fogos anunciam o início das novenas e terços que são celebrados em louvor ao santo e em agradecimento a graças alcançadas e a curas de males que os precários serviços de saúde não atendem.

No mês de setembro este é o cenário que, por vários dias, se repete em diversas residências de alguns sítios do município de Cachoeira dos Índios. Localidades situadas, sobretudo, no entorno do Sítio Cipó dos Monteiros onde as primeiras Festas dos Cachorros ou Festa de São Lázaro surgiram, no início do século XX. A região, situada na parte ocidental do município de Cachoeira dos Índios era, nesta época, umas das principais rotas de romeiros que, oriundos do Rio Grande do Norte e do Sertão, Agreste e Brejo da Paraíba, peregrinavam para Juazeiro do Norte aonde iam tomam a bênção e ouvir os conselhos e sermões do Padre Cícero Romão Batista.

Tradicionalmente, esses romeiros pernoitavam nas casas situadas ao longo do caminho e, foi em um destes pernoites que um grupo de romeiros parou na casa do senhor Antonio Monteiro e de Mãe Joana, no Sítio Cipó dos Monteiros. No grupo estava uma mulher, de nome Maria das Dores, que acometida de grave problema de saúde, com o corpo coberto de ferimentos, buscava lenitivo junto ao Padim Ciço. O quadro agrava-se e a romeira fica na comunidade, sob os cuidados de Mãe Joana que faz a promessa para São Lázaro. Alcançada a graça da cura o pagamento da promessa: a realização, todos os anos, de uma festa para São Lázaro. Os gêneros para a preparação da comida seriam obtidos solicitando a todos os moradores do lugar. A primeira mesada, com todos os pratos preparados para festa seria servida para os cães que dividiram os pratos com aqueles que pagavam promessas. Antes, porém, a banda de pífanos reverenciava o santo e executava todo o ritual da solenidade.

Hoje, quase um século depois, a festa de São Lázaro se repete, por vários dias, em várias localidades. No Sítio Impueiras, nas casas de Joventino e de Belizária, netos de Mãe Joana. No Sítio Cipó dos Monteiros, nas casas de Vila e de Donda, bisnetos de Mãe Joana. No Distrito de Fátima, na casa de Déusa, filha de retirantes que, saindo do Cariri cearense, migraram para a região para trabalhar nos antigos engenhos de rapadura, todos atualmente extintos.

Em todas as festas a tradição se mantém. A fé do povo simples que acredita nos milagres de um santo que, na oficialidade da Igreja, não existe. A referência a Lázaro é uma passagem do Novo Testamento quando Jesus conta a parábola do rico avarento e do pobre leproso que mendiga os farelos que caem da mesa do rico e que são consumidas pelos cães que lambem suas feridas. Mas esse é apenas um simples detalhe. Os relatos de curas são mais enfáticos que o reconhecimento oficial da legitimidade do santo. E assim, a tradição se mantém e a Festa dos Cachorros continua reunindo e aproximando pessoas, reforçando a fé e instituindo tradição.

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